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Ciência não é questão de fé. Mas há muitos jeitos de acreditar em algo.

A história (e a moral da história) dos botânicos soviéticos que se sacrificaram para salvar uma coleção de sementes dos nazistas.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 20 dez 2024, 14h33 - Publicado em 20 dez 2024, 12h00

Esta é a carta ao leitor da edição 470 da Super, de dezembro de 2024.

Aleksandr Shchukin morreu de fome sentado em sua escrivaninha, no Natal de 1941, com um saquinho de amêndoas nas mãos. Ele se negou a comê-las. Fazia quatro meses que São Petersburgo – na época, rebatizada pelos soviéticos de Leningrado – estava cercada pelos nazistas. Fazia -40 °C, e 3 milhões de pessoas passavam fome.

O botânico de 85 anos havia trabalhado a vida toda no Instituto Vavilov, um prédio que, na época, armazenava mais de 250 mil sementes, tubérculos e outras partes de plantas. Esse foi o primeiro (e, na época da 2ª Guerra, ainda era o único) banco genético do mundo. 

Quando os alemães se aproximaram da cidade, os pesquisadores juraram salvar o local, cientes de que o acervo de DNA contido ali seria o único jeito de reerguer a agricultura da URSS no pós-guerra. E cumpriram a missão pelos 900 dias de cerco – mesmo após Moscou ordenar que o acervo fosse comido. 19 botânicos morreram. 

Pessoas, pets e ratos famintos não eram a única ameaça. Havia também os ataques aéreos. Toda vez que uma bomba incendiária caía no Vavilov, um grupo de pesquisadores a removia com tenazes – aqueles longos utensílios em forma de alicate usados para manusear ferro incandescente a uma distância segura. Eles salvaram o local de 108 projéteis. 

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Alguns meses depois, na primavera de 1942, os botânicos sobreviventes organizaram um mutirão. Cada pedacinho de jardim que havia na cidade virou horta. Eles ensinavam a população a cultivar legumes e a reconhecer plantas selvagens comestíveis. Em 1967, 40 milhões de hectares na Rússia eram cultivados com sementes do Vavilov. 

Li essa história no jornal The Guardian e resolvi contá-la por causa do seguinte: muita gente, ao saber que sou ateu, já me perguntou se, então, eu “acredito na ciência”. Eu sempre explico que não, porque a ciência não é uma concorrente da religião e não é exatamente uma coisa em que se possa ou não acreditar. Ela não é um conjunto de crenças – e também não é o cerne da minha vida espiritual, que gira em torno de outras coisas. 

A ciência é um método – você já está careca de ler isso na Super. Você levanta uma hipótese, faz um experimento para confirmá-la e então verifica o resultado desse experimento. Não importa em qual lugar do Universo você esteja, se repetir um procedimento nas mesmas condições, você obterá os mesmos resultados.

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Se um experimento não foi esclarecedor, realiza-se outro. Se uma equipe obteve um certo resultado, outra equipe tenta replicá-lo para garantir que está tudo certo.

Esse trabalho coletivo e insistente tem seus defeitos, percalços e vieses tipicamente humanos, mas deu um bocado de resultado nos últimos 300 anos. Vacinas, antibióticos, água fluoretada, transfusões de sangue: tudo isso funciona, é um fato. Dizer que eu acredito nessas coisas é como dizer “acredito que tubarões comem peixes” ou “acredito que Senna é famoso”. 

Dito isso, a história do Vavilov me fez perceber que eu acredito na ciência em um sentido diferente da palavra: eu acredito no poder da paciência. De guardar sementes no inverno para semeá-las quando a primavera chegar. 

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A pesquisa básica é isso: investigar a natureza movido pela curiosidade – e então, no futuro, perceber que essa investigação tropeçou em respostas para necessidades práticas. Aí, sim, há um salto de fé. Sendo assim, um abraço a todos aqueles que estão de avental em algum laboratório do Brasil, guardando as amêndoas em vez de comê-las e se livrando de bombas que caem do céu. Obrigado por fazerem isso pelo País, apesar de tudo. 

Bruno Vaiano
Editor-Chefe
bruno.vaiano@abril.com.br

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