Oferta Relâmpago: Super em Casa por 9,90

85% da neve das Olimpíadas de Inverno é artificial; entenda por quê

Invernos mais curtos e imprevisíveis já exigem centenas de milhões de litros de água para garantir condições de competição.

Por Luiza Lopes 9 fev 2026, 18h00 •
  • As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, começaram na última sexta-feira (6). Desde a abertura e até o encerramento, no dia 22, cerca de 85% da neve usada nas competições não cairá do céu. Ela será produzida por máquinas, a partir de água bombeada para grandes reservatórios em altitude e pulverizada por centenas de canhões.

    No total, serão cerca de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, em um processo que consumirá 946 milhões de litros de água. O volume é suficiente para encher aproximadamente um terço do estádio do Maracanã. 

    Para garantir as pistas das provas ao ar livre, mais de 125 canhões foram instalados em cidades como Cortina d’Ampezzo, Bormio e Livigno, apoiados por reservatórios construídos em áreas de montanha.

    Os dados, reunidos pelo Instituto Talanoa, evidenciam uma tendência que vem se consolidando há mais de uma década. O motivo talvez você já tenha adivinhado: o avanço do aquecimento global.

    Os invernos estão cada vez mais curtos, mais quentes e menos previsíveis. Mesmo em regiões tradicionalmente associadas à neve abundante, como os Alpes, o número de dias com temperaturas abaixo de zero vem caindo de forma consistente. 

     

    Em Cortina, as temperaturas médias de fevereiro subiram 3,6 °C desde 1956, quando a cidade sediou os Jogos pela última vez. Na década seguinte àquela edição, eram registrados em média 214 dias por ano abaixo de zero; hoje, são cerca de 173, uma queda de quase 20%. Além disso, a profundidade média da neve em fevereiro diminuiu cerca de 15 centímetros desde os anos 1970.

    Continua após a publicidade

    O fenômeno não é local. Uma análise da organização Climate Central mostra que todas as 19 cidades que sediaram os Jogos de Inverno desde 1950 aqueceram, em média, 2,7 °C. 

    Diante desse cenário, a produção de neve artificial passou a ser parte estrutural dos Jogos. Em Sóchi 2014, na Rússia, cerca de 80% da neve foi fabricada. Em PyeongChang 2018, na Coreia do Sul, o índice chegou a 98%. Em Pequim 2022, na China, 100% das provas ocorreram sobre neve artificial. 

    A tecnologia, porém, tem limites. Ela precisa de temperaturas negativas por períodos prolongados para se fixar adequadamente. Quando o termômetro oscila em torno de zero, aumentam os riscos de chuva sobre as pistas, formação irregular da cobertura e superfícies mais duras e escorregadias.

    Além disso, a produção contínua exige grandes volumes de água e energia, pressionando recursos hídricos locais, alterando o regime natural dos solos e ampliando o impacto ambiental em regiões de montanha já sensíveis às mudanças climáticas.

    Continua após a publicidade

    A neve produzida por máquinas é mais densa e contém menos ar do que a natural. Por isso, absorve menos o impacto das quedas, o que aumenta o risco de lesões para os atletas. Ao se compactar com mais facilidade, ela também pode retardar o derretimento na primavera, interferindo no ciclo natural da água e na vegetação local.

    O problema se agrava nos Jogos Paralímpicos de Inverno, realizados algumas semanas depois das Olimpíadas, geralmente em março. Desde 1992, qualquer cidade candidata precisa sediar ambos os eventos, o que exige um período ainda mais longo de frio consistente. 

    Um estudo recente avaliou 93 localidades que já sediaram ou poderiam sediar os Jogos. Até 2050, apenas quatro seriam capazes de realizar as competições sem qualquer uso de neve artificial: Niseko, no Japão; Terskol, na Rússia; e Val d’Isère e Courchevel, na França.

    Pesquisas com atletas e treinadores reforçam a percepção de que o esporte está mudando. Levantamentos internacionais indicam que mais de 90% dos profissionais de elite se dizem preocupados com o impacto das mudanças climáticas. Temporadas mais curtas obrigam equipes a viajar entre continentes em busca de neve, encarecendo o treinamento e aumentando a desigualdade entre países e atletas.

    Continua após a publicidade

    O Comitê Olímpico Internacional, por sua vez, afirma que a segurança dos atletas é a prioridade na preparação das pistas e promete tornar os Jogos futuros “climaticamente positivos” a partir de 2030. Entre as soluções discutidas estão: antecipar o calendário, concentrar eventos em fevereiro ou adotar um modelo rotativo com poucas sedes climaticamente confiáveis.

    Vale lembrar que o problema vai além das competições. A neve funciona como um reservatório natural de água, liberando-a gradualmente ao longo do ano. Com menos neve acumulada no inverno, rios têm menor vazão na primavera e no verão, reservatórios sofrem pressão adicional e aumenta o risco de escassez hídrica em períodos de seca.

    A redução da cobertura de neve também afeta a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de cidades que dependem do degelo. Ecossistemas adaptados ao frio perdem estabilidade, espécies enfrentam dificuldades de sobrevivência e economias locais baseadas no turismo de montanha tornam-se mais vulneráveis e imprevisíveis.

    Observações por satélite mostram que a extensão do gelo marinho do Ártico permanece abaixo da média histórica. Em setembro de 2012, foi registrada a menor área já observada, com 3,8 milhões de km². Em dezembro de 2025, o gelo cobria 12,45 milhões de km², ainda inferior à média do período 1991–2020.

    Continua após a publicidade

     

     

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
    Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 14,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).